A recuperação do Rio Sena de Paris, França tornou-se uma referência mundial de revitalização ambiental urbana. Após cerca de cinquenta anos de investimentos contínuos, planejamento de longo prazo e forte coordenação institucional, a França conseguiu transformar um rio que havia sido considerado biologicamente morto em símbolo de qualidade de vida, sustentabilidade e orgulho urbano. A realização de provas aquáticas nas Olimpíadas de Paris 2024 representou o ápice dessa transformação.
Diante desse sucesso, surge inevitavelmente a comparação com o Rio Tietê de São Paulo. Afinal, São Paulo também investe há décadas na recuperação de seu principal rio, mobilizando bilhões de reais em saneamento e infraestrutura. A pergunta, portanto, não é se São Paulo está investindo, mas sim: por que, apesar de tantos esforços, o Tietê ainda permanece longe de uma recuperação comparável à do Sena?
A resposta talvez seja desconfortável, mas necessária: São Paulo não está errando propriamente no diagnóstico técnico. O estado sabe, em grande medida, o que precisa ser feito. O problema central está menos na engenharia e mais no modelo de gestão, governança e priorização política adotado ao longo das últimas décadas.
O primeiro grande contraste entre Sena e Tietê está na continuidade institucional. A França tratou a recuperação do Sena como uma política de Estado, capaz de atravessar governos, ciclos econômicos e crises fiscais sem perder prioridade. Em São Paulo, a despoluição do Tietê frequentemente assume características de programa de governo. A cada nova gestão surgem revisões de prioridades, mudanças de cronograma, reformulações de metas e reconfigurações institucionais. Isso reduz a previsibilidade e enfraquece a continuidade estratégica necessária para um projeto dessa magnitude.
Outro erro importante está na forma como medimos o progresso. Em São Paulo, o debate público frequentemente enfatiza indicadores de esforço, como quilômetros de rede instalados, número de ligações domiciliares ou volume de investimentos realizados. Esses indicadores são relevantes, mas não representam o objetivo final. O que realmente importa é o resultado ambiental: a qualidade da água está melhorando? O nível de oxigênio dissolvido aumentou? A biodiversidade está retornando? O rio voltou a ser ecologicamente funcional? Paris mudou sua lógica de avaliação justamente quando passou a medir resultados ambientais e não apenas infraestrutura implantada.
Há ainda uma diferença estrutural de abordagem. A França compreendeu que despoluir um rio exige muito mais do que tratar esgoto. A recuperação do Sena ocorreu quando o saneamento passou a ser integrado ao planejamento urbano, à drenagem pluvial, à gestão de resíduos sólidos, ao controle industrial e à ocupação territorial. Em São Paulo, essas agendas continuam excessivamente fragmentadas. Saneamento, drenagem, habitação, mobilidade e urbanismo ainda operam, em grande medida, em compartimentos institucionais separados. O Tietê, porém, recebe os impactos combinados de todas essas políticas.
Essa fragmentação torna-se ainda mais crítica diante de um dos maiores pontos cegos da despoluição paulista: a poluição difusa. Uma parcela crescente da carga poluidora que chega ao Tietê já não decorre exclusivamente da ausência de coleta formal de esgoto. Grande parte vem do lixo urbano, de resíduos carregados pelas chuvas, de sedimentos, de óleo automotivo, de ligações clandestinas e da impermeabilização da metrópole. No caso francês, essa questão tornou-se prioridade a partir dos anos 1980. Em São Paulo, embora reconhecida tecnicamente, ainda recebe atenção secundária em comparação com grandes obras tradicionais.
A governança metropolitana talvez seja o ponto em que a comparação com Paris se torna mais reveladora. A França criou estruturas robustas e centralizadas, como a “Agence de l’Eau Seine-Normandie” e o “SIAAP”,“Syndicat Interdépartemental pour l’Assainissement de l’Agglomération Parisienne”, capazes de coordenar planejamento, investimentos e operação em escala de bacia. Na Região Metropolitana de São Paulo, a governança permanece fragmentada entre Estado, municípios, concessionárias, órgãos ambientais e agências reguladoras. O resultado é uma coordenação frequentemente insuficiente para enfrentar um problema que, por definição, ultrapassa fronteiras administrativas.
Outro diferencial decisivo está na inteligência operacional. Paris investiu pesadamente em sistemas avançados de gestão hidráulica em tempo real, como o MAGES, que integra sensores, radares meteorológicos, reservatórios, túneis e modelagem matemática para minimizar extravasamentos e controlar cargas poluidoras durante eventos de chuva. São Paulo dispõe de piscinões, barragens e estruturas hidráulicas relevantes, mas ainda carece de uma gestão metropolitana plenamente integrada, digitalizada e preditiva. Em muitos casos, a operação continua mais reativa do que preventiva.
Entretanto, talvez o desafio mais complexo do Tietê seja aquele que Paris enfrentou em escala muito menor: a ocupação irregular das margens e áreas de manancial. Grande parte da poluição persistente da bacia está associada à informalidade urbana. Milhões de pessoas vivem em assentamentos precários com infraestrutura insuficiente. Sem políticas consistentes de urbanização, reassentamento digno e regularização fundiária, a recuperação plena do rio torna-se extremamente difícil. Nesse aspecto, São Paulo enfrenta um desafio social consideravelmente mais complexo que o da capital francesa.
Há ainda um componente cultural que raramente recebe a devida atenção. Paris recuperou o Sena quando devolveu o rio à população. O Sena voltou a ser espaço de lazer, convivência, turismo e identidade urbana. O Tietê, ao contrário, continua sendo percebido por grande parte dos paulistanos como uma barreira física, um canal degradado ou um corredor viário. A sociedade pouco se apropria do rio como patrimônio coletivo. Quando a população deixa de enxergar o rio como parte da cidade, a pressão política por sua recuperação perde força.
Também falta a São Paulo uma meta mobilizadora de grande impacto simbólico. Paris teve uma meta clara, poderosa e facilmente comunicável: tornar o Sena apto para receber provas olímpicas de natação em 2024. Esse objetivo gerou urgência, alinhamento institucional e pressão por resultados. O Tietê ainda carece de uma visão mobilizadora semelhante. Um trecho balneável, parques fluviais integrados, retorno da pesca recreativa ou usos urbanos qualificados poderiam funcionar como metas capazes de transformar o debate público.
Talvez o erro conceitual mais profundo esteja na própria expectativa social. Ainda persiste a ideia de que o Tietê poderia ser recuperado rapidamente, como se bastassem algumas obras adicionais para resolver o problema. A experiência do Sena mostra justamente o contrário. Paris levou meio século para alcançar resultados transformadores. E o desafio paulista é, em muitos aspectos, ainda mais complexo. São Paulo reúne maior desigualdade social, maior informalidade urbana, maior fragmentação institucional e uma bacia metropolitana mais extensa e vulnerável.
Isso não significa que São Paulo esteja fracassando. Seria injusto ignorar os avanços obtidos. A expansão da coleta e tratamento de esgoto, a continuidade do Projeto Tietê, a modernização das grandes estações de tratamento e a melhora de diversos indicadores ambientais demonstram progressos reais. O Tietê já não é apenas um símbolo de degradação; tornou-se também símbolo de persistência institucional e capacidade de transformação.
A principal lição que Paris oferece a São Paulo talvez seja simples, mas profunda. O Sena começou a ser efetivamente recuperado quando deixou de ser tratado apenas como um problema de esgoto e passou a ser encarado como um projeto de cidade.
Esse talvez seja o ponto central para o futuro do Tietê. O rio não será plenamente recuperado apenas com mais interceptores, mais estações de tratamento ou mais investimentos lineares em saneamento. Sua recuperação dependerá de uma decisão coletiva de recolocá-lo no centro da visão urbana e territorial de São Paulo.
Em última análise, despoluir o Tietê não é apenas uma obra de infraestrutura. É um projeto de cidade, de governança e de futuro. E, como mostrou o Sena, projetos dessa natureza exigem não apenas recursos financeiros, mas sobretudo persistência institucional ao longo de gerações.



