O capital a serviço da vida: por que o território deve vir primeiro

O capital a serviço da vida- por que o território deve vir primeiro

Nos últimos anos, o mercado avançou muito na criação de instrumentos voltados ao financiamento de impactos ambientais e sociais: créditos de carbono, pagamentos por serviços ambientais, títulos temáticos, blended finance, métricas de benefício hídrico e mecanismos de pagamento por resultados.

Essas soluções são importantes e necessárias. Mas, na Cristalina, temos nos feito uma pergunta anterior: será que não estamos, muitas vezes, começando pelo instrumento financeiro antes de compreender integralmente o território que queremos transformar?

Essa pergunta não nasceu de uma discussão teórica. Ela vem da nossa experiência com projetos de água e saneamento nos quais a infraestrutura, embora indispensável, representa apenas uma parte da transformação necessária.

Um território não é simplesmente um espaço onde diferentes projetos acontecem. É um sistema vivo, no qual água, saneamento, saúde, conservação ambiental, cultura, geração de renda, governança e relações comunitárias estão profundamente interligados.

Quando olhamos apenas para uma dessas dimensões, corremos o risco de financiar uma intervenção pontual sem compreender as condições necessárias para que seus resultados sejam sustentáveis. Gosto de dizer que, muitas vezes, estamos colocando um “Band-Aid em uma fratura exposta”.

Uma obra de saneamento, por exemplo, não termina quando a infraestrutura é implantada. Ela depende da disponibilidade e da qualidade da água, da capacidade de operação e manutenção, da participação comunitária, da governança local, da articulação institucional e de um modelo econômico capaz de sustentá-la ao longo do tempo.

Da mesma forma, conservar uma nascente não gera apenas um benefício ambiental. Pode ampliar a segurança hídrica, reduzir doenças, preservar modos de vida, fortalecer a autonomia das comunidades, diminuir o tempo dedicado à busca por água e aumentar a resiliência climática de todo o território. Esses resultados não acontecem de maneira isolada. Eles se reforçam mutuamente.

É a partir dessa percepção que temos exercitado, na Cristalina, um novo racional para pensar investimentos em água, saneamento e regeneração.

A ideia central é simples: o território deve vir antes do instrumento financeiro.

Isso significa começar pela compreensão integrada de suas necessidades, vulnerabilidades, potencialidades e capacidades. Não basta entender quais obras são necessárias, pois inicialmente precisamos compreender quais resultados sociais, ambientais e econômicos podem ser gerados, o que é necessário para torná-los duradouros, quem participa das decisões, quem cuidará das soluções implantadas e como seus benefícios serão acompanhados ao longo do tempo.

Para quem, como eu, passou grande parte da vida profissional estruturando investimentos, essa mudança de perspectiva não é pequena. Ela nos obriga a perguntar não apenas se um projeto é financiável, mas o que precisa estar conectado para que ele faça sentido para aquele território.

Em vez de procurar uma única solução capaz de financiar tudo, podemos reconhecer que cada necessidade territorial possui características próprias. Infraestrutura, conservação ambiental, fortalecimento comunitário, desenvolvimento de capacidades locais, operação, assistência técnica e geração de renda não necessariamente devem ser financiados pelo mesmo tipo de capital.

Algumas dessas camadas poderão demandar recursos públicos, enquanto outras poderão mobilizar capital filantrópico, financiamento climático, investimento de impacto, recursos corporativos, concessões, parcerias ou mecanismos de pagamento por resultados.

O desafio passa a ser conectar essas diferentes formas de capital, respeitando seus objetivos, riscos, prazos e expectativas de retorno, mas mantendo uma visão comum sobre a transformação que se pretende realizar.

No entanto, olhar o território como unidade de planejamento e investimento não pode significar reduzi-lo a um conjunto de ativos monetizáveis. Um território é feito de pessoas, relações, histórias, culturas e ecossistemas. O capital deve estar a serviço de sua capacidade de sustentar a vida, e não o contrário.

Talvez esse seja um dos próximos passos necessários para as finanças regenerativas: deixar de financiar apenas projetos fragmentados e compreender como diferentes investimentos podem contribuir para uma transformação territorial integrada.

Afinal, desenvolvimento humano e ambiental não são agendas separadas. São dimensões interdependentes de uma mesma realidade.

Não se trata de escolher primeiro um instrumento financeiro e depois procurar onde aplicá-lo. Trata-se de começar pelas perguntas essenciais: o que este território precisa para sustentar a vida e prosperar?; quais transformações precisam acontecer de forma conectada?; e como diferentes formas de capital podem contribuir para viabilizá-las e sustentá-las ao longo do tempo?

Quando o território orienta a estratégia, o instrumento financeiro encontra seu lugar. Ele deixa de conduzir a transformação e passa a servi-la. O território vem primeiro. O capital deve estar a serviço da vida.