Rio Sena: a história de como a França levou 50 anos para recuperar um rio considerado morto

Rio Sena- a história de como a França levou 50 anos para recuperar um rio considerado morto

Em julho de 2024, milhões de pessoas ao redor do mundo acompanharam as provas de triatlo e maratona aquática realizadas no Rio Sena durante os Jogos Olímpicos de Paris. Para muitos, tratava-se apenas de mais um cenário espetacular para um grande evento esportivo. Para os franceses, porém, aquelas imagens simbolizavam algo muito maior: a conclusão de uma jornada de mais de cinquenta anos de investimentos, planejamento e perseverança para recuperar um rio que chegou a ser considerado biologicamente morto.

A história da despoluição do Sena é hoje reconhecida como um dos maiores programas de recuperação ambiental urbana do mundo. Ela demonstra que problemas ambientais complexos não são resolvidos por uma única obra ou por um único governo, mas por uma visão de longo prazo sustentada por instituições sólidas e investimentos contínuos.

A degradação do Sena começou ainda no século XIX, acompanhando a rápida industrialização e expansão urbana de Paris. Entre 1850 e 1910, a cidade enfrentava graves problemas sanitários. Epidemias de cólera e tifo eram recorrentes, a qualidade da água era precária e os esgotos frequentemente corriam a céu aberto. Na época, a prioridade das autoridades era garantir água potável para a população e afastar os resíduos da cidade.

A resposta foi ambiciosa. Sob a liderança do engenheiro Eugène Belgrand, Paris construiu um dos mais avançados sistemas hidráulicos do mundo. A água passou a ser captada em fontes distantes da região de Fontainebleau e transportada por um sistema de aquedutos que totalizava entre 600 e 700 quilômetros. O armazenamento era garantido por grandes reservatórios urbanos, entre eles o Réservoir de Montsouris, construído entre 1868 e 1873.

Ao mesmo tempo, a cidade desenvolveu uma extensa rede unitária de esgoto e drenagem. O sistema passou de cerca de 30 quilômetros de galerias no início do século XIX para aproximadamente 600 quilômetros em 1878 e mais de 1.200 quilômetros em 1914. Para a época, tratava-se de uma revolução sanitária.

Contudo, o crescimento industrial e demográfico de Paris avançava mais rapidamente do que a capacidade da infraestrutura instalada. Entre 1910 e 1950, a expansão urbana agravou significativamente a poluição do Sena. Embora as redes de coleta continuassem sendo ampliadas e novos interceptores fossem construídos ao longo do rio, praticamente não existia tratamento efetivo dos esgotos coletados.

Foi nesse contexto que surgiu o projeto da primeira grande estação de tratamento de esgoto da região parisiense. Concebida em 1929 e localizada em Achères, sua primeira etapa entrou em operação apenas em 1940. Ainda assim, sua capacidade era insuficiente diante do crescimento da metrópole.

A situação tornou-se ainda mais crítica entre 1950 e 1970. Durante esse período, Paris realizou investimentos maciços em saneamento. Foram construídos novos coletores-tronco, interceptores marginais ao Sena, emissários metropolitanos e estações elevatórias. A estação de Achères foi ampliada sucessivamente nas décadas de 1950, 1960 e início dos anos 1970, transformando-se na maior estação de tratamento de esgoto da Europa.

Paradoxalmente, foi justamente nesse período que o Sena atingiu o auge de sua degradação ambiental. O crescimento populacional e industrial continuava superando a capacidade de tratamento disponível. Os níveis de oxigênio dissolvido atingiram valores críticos, a poluição orgânica e bacteriológica tornou-se extrema e a biodiversidade praticamente desapareceu. Em determinados trechos do rio, apenas três espécies de peixes conseguiam sobreviver.

Diante desse cenário, a França decidiu mudar radicalmente sua estratégia. A partir da década de 1970, o objetivo deixou de ser apenas afastar os esgotos da cidade e passou a ser a recuperação efetiva do rio.

Essa transformação foi sustentada por dois pilares institucionais. O primeiro foi a gestão integrada por bacia hidrográfica, estruturada pela Agence de l’Eau Seine-Normandie, criada a partir da Lei da Água de 1964. A agência passou a planejar os investimentos, monitorar a qualidade da água e financiar projetos ambientais por meio do princípio do “poluidor-pagador”.

O segundo pilar foi a criação, em 1970, do SIAAP – Syndicat Interdépartemental pour l’Assainissement de l’Agglomération Parisienne. O organismo tornou-se responsável pelo saneamento de toda a Grande Paris, atendendo atualmente cerca de 9,2 milhões de habitantes distribuídos em aproximadamente 180 municípios. Hoje, o SIAAP opera seis grandes estações de tratamento, administra cerca de 440 quilômetros de emissários subterrâneos e trata aproximadamente 2,5 milhões de metros cúbicos de esgoto por dia.

Durante as décadas seguintes, os investimentos concentraram-se na modernização das estações de tratamento e no controle da poluição industrial. Tecnologias avançadas para remoção de carbono, nitrogênio e fósforo foram incorporadas aos processos de tratamento, reduzindo drasticamente a carga poluidora lançada no rio. Gradualmente, os níveis de oxigênio dissolvido começaram a se recuperar e a qualidade da água melhorou de forma consistente.

Entretanto, um novo desafio surgiu. Apesar dos avanços no tratamento dos esgotos, os eventos de chuva intensa continuavam provocando extravasamentos de grandes volumes de água contaminada diretamente no Sena. O problema era consequência da própria concepção histórica da rede parisiense, que combinava esgoto e águas pluviais no mesmo sistema.

A solução encontrada foi novamente inovadora. A partir dos anos 1980, Paris passou a investir em reservatórios subterrâneos, túneis de armazenamento e sistemas avançados de controle hidráulico. O desenvolvimento do sistema MAGES — Modèle d’Aide à la Gestion des Effluents du SIAAP — permitiu integrar sensores hidráulicos, radares meteorológicos, previsões climáticas, monitoramento da qualidade da água e modelagem matemática em tempo real. O sistema passou a calcular continuamente os volumes de chuva, a capacidade das galerias, os níveis dos reservatórios e a melhor distribuição dos fluxos, tornando-se uma referência mundial em gestão inteligente de redes de drenagem e saneamento.

A etapa mais recente da recuperação começou na década de 2010, quando a França passou a incorporar uma visão mais ampla de recuperação ecológica e balneabilidade. O Plano de Balneabilidade lançado em 2016 tinha objetivos ambiciosos: melhorar a qualidade sanitária da água, recuperar a biodiversidade, permitir a realização de provas olímpicas no Sena e devolver o rio à população.

O programa mobilizou o Estado francês, a Prefeitura de Paris, a Agence de l’Eau Seine-Normandie, o SIAAP e diversos organismos ambientais. Somente o SIAAP investiu cerca de 500 milhões de euros em novas unidades de desinfecção, ampliação da capacidade de retenção de águas pluviais e reforço dos sistemas de monitoramento da qualidade da água.

Os resultados superaram as expectativas. O salmão voltou a ser encontrado no Sena. O número de espécies de peixes aumentou de três para aproximadamente trinta e sete. A poluição bacteriológica foi drasticamente reduzida. O rio voltou a apresentar condições adequadas para atividades recreativas e esportivas.

As Olimpíadas de Paris 2024 tornaram-se o símbolo dessa transformação. Pela primeira vez em muitas décadas, atletas competiram nas águas do Sena diante dos principais monumentos da capital francesa. Após os Jogos, mais de 175 mil pessoas utilizaram as áreas de banho abertas no Sena e no Marne, consolidando o retorno desses rios à vida cotidiana da população.

A experiência francesa deixa uma mensagem clara para cidades de todo o mundo. A recuperação de grandes rios urbanos não é um projeto de curto prazo. Exige décadas de investimentos, continuidade institucional, capacidade técnica, governança integrada e, sobretudo, a compreensão de que o saneamento deve ser tratado como uma política de Estado.

O Sena levou um século para morrer e  meio século para voltar a viver. Hoje, suas águas limpas não representam apenas uma conquista ambiental. Elas simbolizam a capacidade de uma sociedade de planejar o futuro, perseverar diante dos desafios e transformar um dos maiores passivos ambientais de sua história em um exemplo mundial de recuperação e sustentabilidade.